CONSELHOS MISSIONÁRIOS: MUDANÇA DE TÁTICA

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas

        Estive, recentemente, participando da 41ª Assembleia do COMINA (Conselho Missionário Nacional), e ouvi os queixumes das dificuldades para implantação dos Conselhos Missionários, em níveis regionais, diocesanos e paroquiais. Fiquei dias matutando o que dizer para não dizer o óbvio e para não dizer nada por não ter nada que dizer.
Lembrei que, certa vez, tive uma boa conversa com a coordenadora da Pastoral Vocacional. Ela me relatou, uma por uma, as suas dificuldades: mandava avisos, bilhetes, recados, mensagens, telefonemas, e-mails, WhatsApp e falava pessoalmente ninguém lhe respondia ou reagia. Por estas razões ou causas a PV não funcionava em minha diocese, como talvez não funcionam os Conselhos Missionários.
Eu a ouvi, atentamente, com todo o coração, com atenção, interesse e encantamento. A minha primeira e principal atitude foi de escutá-la com gosto, com interesse e com boa vontade. Tudo começou com esta minha atitude: escutá-la ativamente. O segredo da vida pastoral está no encantamento de escutar as pessoas. Talvez por isto Deus insiste com Israel: “Shemá Israel” = “Escuta, Israel” (Deut 6,4). Jesus fala de escuta e de encantamento nas parábolas do tesouro escondido e da pedra preciosa (Mt 13,44-46). Somos e vivemos de nossas escutas com encantamentos. A era da sinodalidade requer de nós, pastores, atitudes de escuta ativa, através da conversação no Espírito. Talvez ainda não escutamos suficientemente, com esta atitude, a importância dos Conselhos Missionários, de seus desafios e de suas belezas e eficácias missionárias em nossas dioceses. Vale a pena fazer este esforço.
E só em seguida, eu a respondi. A segunda atitude minha foi dizer àquela coordenadora para ela mudar de tática. Se até aquele momento a tática não funcionou, é inútil permanecer com ela. Faz-se necessário mudar de tática. Nem toda semente nasce como as sementes das plantas que nascem espontaneamente em nossos jardins e quintais, sem serem semeadas. Há semente que não nasce assim. É preciso a especificidade de um bom semeador para nascer e dar frutos 30, 60 e 100 por cento do que foi plantado (Mt 14,8). Jesus não idealizou e nem fantasiou a missão. Pelo contrário, disse que o caminho da missão era árido: “eis os sinais que a acompanharão”: demônios para serem expulsos, línguas novas para serem faladas, serpentes para serem pegas, venenos mortais para serem bebidos e doentes para serem curados (Mc 16, 17-18). Passemos então para outras outras margens (Mc 4, 35; Mt 14,22).
Jesus modificou e transformou o mundo com a sua presença e com o seu ensinamento porque mudava de tática. É dele a sabedoria milenar de que não se põe vinho novo em odres velhos, nem se coloca remendo novo em tecido velho (Lc 5,37-39). Neste caso específico, o velho vinho estraga o novo, o vinho ruim estraga o vinho bom. Talvez seja isto o que está estragando e dificultando a implementação dos Conselhos Missionários como nos pede o Programa Missionário Nacional.
Jesus mudou de tática várias vezes, para se adaptar, melhor dizendo, para moldar a realidade ao espírito do Reino. “Jesus nunca mudou o Evangelho para adaptá-lo às pessoas. Ele mudou as pessoas para fazê-las caber no seu Evangelho” (autor desconhecido). Jesus mudou de tática quando quebrou as tradições rígidas dos fariseus e dos mestres da lei: cumprimentos e rupturas; quando incluiu os marginalizados na sua solicitude misericordiosa e caritativa: escutas, acolhimentos e inclusões; quando priorizou as transformações internas, em detrimento de práticas religiosas externas: reconversões e revisões de vida; quando antecipou o anúncio da paixão: sacrifício e autodoação; quando pôs os pés na estrada e mudou a forma de ensinar, por meio de sábias ebelas parábolas: itinerância e adaptações aos corações dos ouvintes.
O problema dos vinhateiros homicidas  (Mt 21, 33-46) foi que eles passam a tratar os frutos da vinha como se fossem propriedades suas. O Reino não é nosso. É de Deus. A Igreja não é nossa. É de Jesus. A missão não é nossa. É da Trindade. Nós somos apenas servidores de uma obra que não nos pertence.  A rigor, o bispo não é o dono e nem o senhor da Igreja. É o servo e o esposo. Os anéis que trazemos nos dedos são sinais deste amor-esponsal. Quando casamos com uma pessoa, casamos com ela inteira e concretamente: com o belo e feio, o bom e o ruim, as qualidades e os defeitos, o bônus e o ônus. E não apenas com uma pessoal idealizada. Idealizamos demais a missão. O que não faz um bom esposo pela sua esposa?
Dito isto, voltamos novamente a nós. Nós, comumente agimos assim ou assado, sem nos darmos conta, simplesmente por hábitos. Às vezes, a vontade e a obrigação de realizar uma ação, condiciona o seu resultado. É preciso mudança de tática. E muda-se de tática mudando o comportamento, o posicionamento, a atitude, o valor e a substituição. Os estrategistas mudam de tática. Os treinadores de futebol ganham jogos com uma simples mudança de tática. Os empreendedores, com uma simples mudança de tática, mudam a posição socioeconômica de seus empreendimentos. Se fosse para não mudarmos, deveríamos ter nascidos pedras, árvores e outras coisas que não se movem. A Igreja só existe ainda hoje por causa de suas constantes mudanças de tática. E Jesus nos diz que os filhos das trevas são mais astuciosos do que os filhos da luz (Lc 16,8).
Tudo na vida é questão de prioridade. E a missão, por tudo o que é na Igreja, deveria ser a prioridade das prioridades. Os Conselhos Missionários funcionariam se nós, bispos, fôssemos como os servos da parábola da misericórdia, mais conhecida como “parábola do filho pródigo”. País e filhos tiveram que mudar de táticas para a festa da reconciliação. O que fazem os servos quando o filho mais novo retorna à casa paterna? Trazem depressa a melhor túnica para vestir o filho. Colocam o anel no seu dedo e sandálias nos seus pés. Matam o novilho gordo e preparam o banquete para a festa da reconciliação (Lc 15, 22-23). Esta é a mudança de tática para com os Conselhos Missionários funcionarem. Talvez eles sejam os nossos filhos querendo voltar para nossas casas. Na Igreja, somos estes servos que cuidam dons bens físicos e espirituais dos filhos pródigos, frutos de relações difíceis, de coisas quase impossíveis.
Existem atitudes e atividades na Igreja que eu não considero trabalho, mas sim, graça, vocação e missão. Missão para mim não é trabalho, é graça e vocação: chamado-resposta-missão.
E para finalizar, uma coisa puxa outra. Uma possível mudança de chave seria delegar este serviço missionário ao laicato, através da investidura de “Ministério Missionário” Diocesano ou Paroquial. Os leigos e as leigas poderiam ser bons missionários, até mesmo mais do que nós, homens, ministros ordenados. O missionário na Igreja deveria ser um Ministério. Como disse o Papa Francisco, a respeito de Maria: Maria não era homem, não foi ordenado e nem recebeu uma nomeação canônica. No entanto, ela é bem mais popular do que alguns apóstolos. Para isto deveria haver nas Dioceses, funcionando, os Conselhos Diocesanos de Leigos (CDL) ou outros nomes derivados e similares. Existem? Funcionam?

Compartilhe:

Facebook
Twitter
WhatsApp

VEJA MAIS

Scroll to Top